quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Pobres de nós...

         Clássicos são clássicos não porque são fáceis de ler, mas porque ultrapassam as barreiras do tempo. Mesmo datados, tratam de temas inerentes ao ser humano, insolúveis apesar de toda a tecnologia existente. Por mais satélites, chipes e nanotecnologia que temos, nada nem ninguém conseguiu, ainda, entender os mecanismos do amor, do ciúme e da traição.
         Reverenciado por todos, admirado por sua origem humilde e pela capacidade de, como ninguém, conduzir através de uma suave, quase imperceptível e, porque não, fina ironia, o pensamento do leitor pelo que há de mais incompreensível e inexplicável na alma humana, Machado de Assis é, sem dúvida, o grande “analista” da burguesia carioca do século XIX, burguesia essa não muito diferente da que habita atualmente este belo país tropical...
         Considerado por muitos sua obra-prima, “Dom Casmurro” inspira discussões acaloradas e muitas intertextualidades. Quem resiste ao desejo de demonstrar – provando com passagens do livro – sua opinião sobre o caso de adultério mais famoso da literatura brasileira? Que atire a primeira pedra quem nunca se pegou pensando nas armadilhas que o Bruxo do Cosme Velho deixa na história narrada pelo narrador mais tendencioso do universo literário...
         Muito se pode dizer desta obra que inspirou músicas, adaptações para o cinema e televisão (infelizmente, muito inferiores à obra original), contos, crônicas, pastiches... Há todo um universo relacionado ao livro, enriquecendo a discussão e alargando os limites da compreensão e da interpretação dos adoradores machadianos.
         E o que dizer dela, a mulher mais famosa da literatura brasileira? Capitu é a encarnação do bem e do mal; a vítima e o algoz; a virtude e a vulgaridade, a inocência e a culpa... Figura misteriosa, imaginada por nós, pobres vítimas de um narrador atormentado por incertezas e mágoas do passado. Condenada em um primeiro momento, absolvida em tribunal simulado (homenagem feita em 1999), a ela cabe agora o benefício da dúvida: Capitu traiu ou não traiu? Só lendo para saber? Não, nem lendo para saber...

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