O ser humano se diferencia dos animais não só pela capacidade de comunicação, mas principalmente por ter criado formas de transmitir seu conhecimento às gerações vindouras sem ser necessária sua presença física. É, o homem, com a escrita, tornou tudo o que aprendeu, viveu, sentiu e imaginou praticamente eterno.
Algo que, para nós, é praticamente banal (mesmo em nosso país, ainda tão injusto socialmente, a maior parte da população economicamente ativa é considerada alfabetizada, e a universalização do ensino, ainda que de má qualidade, é uma realidade), simplesmente é considerada o divisor da história – pré-história antes da sua invenção, história após.
Então, por que o “medo” da escrita? Ou, pior ainda, por que o medo da língua portuguesa? “Sou péssimo de português, é muito difícil!”, “o português é a língua mais difícil de se aprender”, “não sei escrever direito”, e muitas outras são as falas que professores de português ouvem dos que acreditam que existam duas línguas: uma no dicionário e na gramática e outra nos seres humanos. Grande parte deste problema deve-se ao fato de que, durante muitos anos, a escola tratou o português como algo “certo” ou “errado”, privilegiando certos registros, obviamente vindos de uma classe dominante, em detrimento do português vivo da população.
Se falamos e nos comunicamos de forma perfeita no dia a dia, qual o problema de colocar isso no papel? Sim, há a necessidade de uma adequação, pois a escrita perde alguns recursos de enunciação, como os gestos, a entonação, a participação do interlocutor… Mas, a escrita, de vilã merece chegar a mocinha da história. Ela é porta que dá acesso a novas oportunidades e conhecimentos, injustamente julgada por precisar, para seu aperfeiçoamento, de algo que, com o avanço das tecnologias e a correria do mundo moderno ficou esquecida: a leitura.
Para aprender a falar não recebemos uma gramática e um dicionário de nossos pais e estudamos com afinco para aprender tudo… Claro, exercícios propostos para este fim aperfeiçoam o que já está interiorizado, mas não fazem surgir “do nada” algo que não se assimilou da primeira forma pela qual o ser humano aprende: pela imitação. Da mesma forma, aprender a escrever não é somente uma mistura de inspiração e domínio de técnicas, mas também de conhecer as diversas manifestações artísticas desta linguagem e abastecer seu repertório com as mais variadas formas de expressar o que se sente por palavras em um papel (ou em uma tela, como é muito comum).
Ler é algo que parece chato ou cansativo, principalmente quando temos tantos recursos mais “interessantes”, como vídeos, fotos, músicas… Mas somente a leitura permite a experiência de uma interpretação única, algo que só a sua vivência e a sua forma de ver o mundo permitem… Solidão povoada, acompanhada por lugares, sensações e ideias que conseguimos conhecer através de palavras que nos conduzem de forma mágica por algo novo… O novo sempre assusta, mas, é somente por ele que chegamos mais longe do que imaginávamos que podíamos ir.
“Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”, já dizia o grande poeta português Fernando Pessoa. Ler é navegar por mares desconhecidos, na segurança de chegar, sem perigo, ao que todos buscam, mesmo que de forma inconsciente: o conhecimento. Jornais, livros, revistas, blogs… Tudo vale a pena!
Nenhum comentário:
Postar um comentário